terça-feira, 23 de novembro de 2010

Tão 2008

Eu esqueço da dor passada, dos dias insones, da falta de você. Faço tudo para convencer todas as partes do meu corpo de que você já foi. Não falo mais sobre você. Não ouço mais as mesmas músicas, fujo. Me convenço de que aquilo tudo não era nada e que você não foi o culpado por meus dias sem esperança. Fujo. Aprendi bem a fazer isso. E sem querer, revivo uma seleção 2008 no ipod e dois acordes são o bastante pra me colocar no mesmo ponto em que eu fingi que tinha abandonado: a vulnerabilidade completa. Não sei mais como fugir. O choro no meio do trabalho, a vontade de que você sofra também, a raiva, dor, dor. Tudo em mim parece sentir você de volta. Dias insones. And so on, so on.

terça-feira, 26 de outubro de 2010

Diálogos Surreais

S: comprei um apontador fiquei contente
eu: apontador?
S: sim
eu: eu queria ter o sorriso dessa menina
S: tenho uns 4 lápis aqui que nao dá pra usar pq nao tenho apontador
eu: ah
e sua felicidade custou tipo, 1,50
S: 2,50
caro, né?
nao achei nada demais no sorriso dela
eu: ah
ela parece feliz
S: ela só é magrela e tem cabelo curto
S: essa mina tem cara de ser feliz pq é meio burra, sabe?
haha
eu: tudo bem
queria ser meio burra
ser feliz
e cantar numa banda massa
com MIL pessoas
S: vc tem um sorriso feliz e é inteligente
vale mais
eu: mas, EU SOU FELIZ?
S: haha
ninguem precisa ficar sabendo

domingo, 5 de setembro de 2010

Abra a porta


Um cachorrinho na porta de casa, sujo e molhado, pedindo, por favor, me ame, por favor, seja meu dono. Um maltrapilho que implora por comida. Ele sabe que tem todo o amor pra dar, será fiel, será companheiro, leal, comportado, só vai fazer xixi onde deixarem e só precisa passear uma vez por dia. Mas, por favor, ame-o. Faça um carinho de vez em quando na sua cabeça e desça a mão pelo resto do corpo, deixe que ele deite de costas e descanse o braço em sua barriga. Ele será feliz, mais feliz do que qualquer cachorrinho carente já foi. Ele não quer muito, só quer amor, só quer ser lembrado e querido. Ele promete fazer festa todas as vezes que você chegar em casa e promete te esperar ansiosamente até que você volte. Assim será até quando você não souber mais viver sem ele. Ele promete.

terça-feira, 17 de agosto de 2010

Banalidades

A tristeza que sente hoje é também conhecida por saudade. Sente falta de algo próximo, de algo que pode pegar e que não é mais o mesmo. A saudade do ser presente. Ela sente agora uma dor nova, a certeza de que perdeu o que já teve, algo que era branco, sincero e muito, muito interior. Não sabe agora se quer ficar com o corpo sem a alma, não sabe mais o que tem a ganhar ou o que pode esperar acontecer. Não deseja nada que não possa ter e ainda acredita que será agraciada com a tão esperada felicidade. Todos os sentimentos bobos, todas as palavras simples, todos os desejos puros.

sexta-feira, 30 de julho de 2010

Mensagem de amor

E de repente, todas as palavras foram pra você. Cada combinação dos versos, as rimas de amor. Os sentimentos honestos dos poetas viram um motivo para uma história. De repente, você se tornou herói. Defeituoso e incompleto, brilhante. E, como num filme, você virou poesia, caixinha de música, composição de Mozart.

sexta-feira, 23 de julho de 2010

Da vontade firme

Ela aguentou. Você sabe? E acha que a maior parte do tempo só pra mostrar que conseguia. Conseguia mudar ou se adaptar, adequar-se, ela conseguiria, se isso mudasse algo. Conseguiria só pra mostrá-lo que se realmente quisesse, ela mudava de verdade. E nascia de novo. Por um tempo ela fez, queria prová-lo e provar a ele. Mudou as roupas, os cabelos, o jeito de falar. Os filmes que via agora eram cheios de conteúdo e a comida que gostava mudou de gosto. Por um bom tempo, ela só queria comprovar que podia fazer o que quisesse. Menos, ela descobriu, menos o que não acreditava. Era movida a fé cega. Não queria tê-lo deixado e, sabia, toda a mudança valia pouco quase nada. Ainda era uma pequena egoísta, impossibilitada de dividir-se e dividir. Mas, continua firme em seu propósito de esconder, de agüentar, de conseguir. E sabe que é capaz de conseguir se aguentar firme, sabe?

segunda-feira, 5 de julho de 2010

She's back

A volta da ansiedade. Uma frase de quatro palavras e a certeza de uma sentença. Quando acordou e prorrogou por horas o momento em que teria que levantar, sabia que seria uma segunda difícil. Não mais que as outras. Ou, um pouco. Na verdade, nunca teve problemas com as segundas. Ela mesma nunca foi muito primeira. Era nota oito e meio na escola, depois oito na faculdade e, antes disso, só passava em segunda chamada nos vários vestibulares que prestou. Um número, nada mais. E a dificuldade de lidar com eles. A volta definitiva da ansiedade. Palavras que se desenhavam na sua cabeça e não correspondiam a nenhum sentido conhecido antes. Sabia que queria escrever, sabia que queria contar o que realmente pensava, mas, mais uma vez, ou pela quarta vez, usou metáforas pobres e ficou muda ao telefone. Só sabe dizer o que quer no momento errado e com as expressões alteradas. A volta da ansiedade. O frio sem nome na barriga, a falta do lado da cama, certas incertezas, medos sem destinatários, cartas para ninguém.

domingo, 20 de junho de 2010

Eu. Se.

Se houvesse palavras pra transformar o que aconteceu em um conto bonito, em que toda a parte triste tivesse contornos suaves e aquela beleza difícil de engolir. Se eu as conhecesse, criaria uma história chamada "Keep Going", ou qualquer coisa que nos deixasse melhor. Se eu pudesse te dizer mais uma vez tudo o que vc já sabe, em uma língua nova, que te fizesse entender a irracionalidade por detrás das pequenas certezas. Se eu soubesse como se transforma as possibilidades e imaginações em um simples domingo tranquilo. Eu. Eu. Se.

segunda-feira, 3 de maio de 2010

I know what she's thinking

Graxa na mão, cabelos sujos, possibilidades impensadas, pensamentos apreensivos, esquecera que podia encontrá-lo. Entra às pressas, foge do cachorro louco, pula a barreira da porta e descobre a meia-calça furada. Lips like sugar. Nada, nada diferente podia estar tocando. A mesma sensação que tantas vezes já reconheceu, a normalidade da reunião, o abraço lógico, mais uma descrição para uma noite comum e que merece ser guardada. No lugar das cartas, a massa branca de pizza. Tudo pode ali. Sugar kisses.

sexta-feira, 23 de abril de 2010

Porque tem provocações que nunca envelhecem

...


Gostaria de lhe escrever uma carta, uma carta verdadeira, atravessando os estratos de lava e de argila que a vida foi sedimentando sobre todas as coisas. Lhe diria que continuo sendo eu e que conservo sonhos. Lhe diria que ainda amo, embora os sentidos estejam cansados. (...)

Procurei você, meu amor, em cada átomo seu que está disperso no universo.
Recolhi quantos deles me foi possível, na terra, no ar, no mar, nos olhares e nos gestos dos homens. (...)

Lembra-se daquela senhora especialista em Tchekov...
Lembra da explanação que deu sobre as últimas palavras do escritor russo?
Ficamos ambos maravilhados.
Nem eu nem você sabíamos que Tchekov ao morrer tivesse dito: Ich sterb! Eu morro!
Pois é, morreu numa língua que não era a sua.
Que estranho, amou em russo, sofreu em russo, odiou em russo, viveu em russo e morreu em alemão.(...)

Aconteceu de modo natural, assim como surde a lua ou como neva
Alguém se aproximou nas pontas dos pés me tocou na nuca e sussurou: 'cabelos de mel...'
Virei e te beijei.
Depois com o indicador na frente dos lábios que tinham te beijado, sussurei: psssiu.
E te beijei novamente.
Pensava em você todos os dias. E as poucas horas do ano em que podia vê-lo naquele hotel de montanha eram quase um suplício.
E você era feliz, entretanto.
Porque as pessoas podem ser felizes nos seus entretantos. Eu também. (...)

Te procuro no resplendor desse mar porque você o viu, e nos olhos do dono da mercearia, do farmacêutico, do velhinho que vende café gelado, naquela pracinha, porque talvez eles tenham visto você.
Estas coisas também coloquei no bolso, este bolso que sou em mesma e os meus sentidos.

Meu amor, me desculpe se ainda o chamo assim como chamava naquela época, depois de todos esses anos, mas não sei mesmo como chamá-lo.
Como é que uma pessoa se dirige ao homem amado que disse ' tchau, ate amanha', e nos abandonou sem deixar sequer um bilhete de explicação?
Porque você continuou sendo o meu amor por toda a minha vida. Os raros homens que tive foram encontros furtivos para satisfazer a carne, porém todas as noites quando eu tentava pegar no sono, abraçando o vazio da minha cama solitária, eu dizia "meu amor" e imaginava que voltaria a viver o milagre de ter você entre os braços.(...)

Gostaria de lhe escrever uma carta verdadeira, atravessando os escuros estratos de lava e de argila que a vida foi sedimentando sobre tudo.
Lhe diria que continuo sendo eu e que conservo sonhos.
A magnólia floresce. E também as crianças crescem.
Lhe diria: o tempo não espera. É feito de gotas.
Basta uma gota a mais para que o líquido se derrame no chão, se expanda e se perca.
Lhe diria que ainda amo, embora os sentidos estejam cansados.
E que preparei as palavras para a minha lápide:
poucas, porque entre a data do meu nascimento e a que será a da minha morte todos os dias são meus.

Seja o sal da terra, seja o sal do mar.
Seja o sal do suor de todo o meu amor.
Seja o sal sob o sol, seja o sal sobre a ferida.
Seja o sal das lágrimas, o sal da minha vida.

E depois lhe direi que te espero embora não se espere quem não pode voltar.

Todas essas ilhas eu percorri, todas procurando por você.
E esta não é a última. Quem poderia continuar a procurá-lo senão eu?

(----> de uma peça chamada "Salt", que assisti em 2005 e por algum motivo tem voltado à memória constantemente)
direção de Eugenio Barba, textos adaptados de "Carta ao Vento" e "Está Ficando Tarde Demais, de Antonio Tabucchi