segunda-feira, 29 de março de 2010

Wait

De repente, me dei conta que resolvi uma antiga questão fazendo o que todos dizem que é pra fazer e ninguém, de fato, consegue. Esperei. Esperei pacientemente. Mentira. Foi sem paciência alguma, bastante enfado, irritação, melancolia, corridas e horas de lágrimas desperdiçadas depois de um filme bonito, uma música bonita, um dia bonito. Uma noite inteira e um pouco da manhã dançando ao som de tudo e a volta pra casa vazia apertou um pouco o peito. Fiz de tudo para preencher a falta que eu achava que tinha nome. TV ligada, janela aberta, luz acesa, vida online, doce no prato, banho quente, música no rádio. Duas horas de pensamentos soltos e a falta que achava que era sua se dissipou com o sono. Com a resposta automática de um email avisando “sua mensagem será entregue ao destinatário”. O extraordinário é que no lugar da falta, que nada é, mas que preenche, ficou nada. Nada de verdade, uma imensa possibilidade de ser alguma coisa qualquer, ou de apenas esperar, mais um pouco. Um nada. Alguém para tomar um vinho chileno.

domingo, 28 de fevereiro de 2010

Colapso

Despertador toca 40 minutos antes do necessário. Banho quente para esquentar os pés e acordar a mente. Café preto, pão na chapa, requeijão com queijo derretidos, banana com granola, iogurte e uva passa. Desenhos passam na tv. Não são tão bons quanto os que passavam cinco meses atrás. Por que mudam tanto a programação? Sem forças para ir caminhar. O que preciso fazer hoje? Branco. Pânico. Desestímulo, dor, nenhuma resposta. Por que mesmo estou aqui? O que queria antes? E de mim? Nada na mente. Sentimento algum. E não é o vazio. Vontade interrompida de chorar. Mas, pelo quê? Por? Não. Não agora. Pelo quê? Pelo quê? E choro, choro, quero me esconder embaixo da cama suja de pó. Não posso sair hoje, não posso falar com ninguém. Por que alguém apenas não me tira daqui? Lágrimas sem sentido, mas, para baixo, com insistência. Nenhuma resposta, nenhuma razão. A saliva não desce direito, o coração não bate direito, as músicas não salvam, o som da sua voz. Não há calma. O dia passa, como os outros. Os olhos inchados de chorar antes de realmente ter acordado. Impaciência, preguiça, viver não é o bastante. Penso, penso. Ou não. Quero sentir mais, mas não suporto. Fim do dia. Carro na porta de casa. Nenhum sentido. Cama grande. Quarto quente. Sonhos epopéicos. Tv ligada, copo de água, chinelos a postos, porta trancada, vento pelas frestas na janela. Tudo de novo. O medo, a ânsia, a solitária. Despertador toca 70 minutos antes do necessário.

segunda-feira, 22 de fevereiro de 2010

Do blog das perguntas

Milena
Nas melenas de Milena, moram mil caracóis.

São gorduchos e tão exibidos que esbarrar em Milena é tropeçar, primeiro, nas infinitas melenas de mil caracóis.

As melenas, muitíssimas, ocultam a Milena e, no entanto, quem vê as melenas enxerga só caracóis.

Onde, então, encontrar a Milena se a Milena se encontra perdida no meio de tantas melenas e mil caracóis?

Será que, no fundo, a Milena é melena e, em vez de Milena, existam apenas os mil caracóis?

postado por Armando Antenore

sexta-feira, 19 de fevereiro de 2010

Tudo, tudo, tudo

E quando eu penso em tudo, nas certezas mais certas, nas horas mais felizes, nos encontros mais banais, nos telefonemas interrompidos, nos sonos profundos, na mão na perna, no cabelo grisalho, nas noites de domingo, o sushi, o cinema, o Manhattan Conection, quando eu penso em tudo, tudo parece sinceramente correto, perfeitamente no lugar, alegremente bom. E quando eu penso em tudo que foi, esqueço o quanto eu te odiava tantas vezes, quanto me irritava com as manias, quanto te via egoísta, me via menor, me queria outra, desejava a distância. E quando tenho tudo junto de novo, o que foi e o que somos, quero tudo de novo, quero tudo, a proximidade e a separação, teu corpo e teu silêncio, meu ódio e a necessidade do seu olhar, a cumplicidade e a incompreensão, a incerteza e o medo, a calma e o futuro. E quando peso tudo, decido que vou partir novamente, ir, fugir, correr, sofrer, chorar, mentir, quebrar, sumir, doer até que você saiba listar tudo o que quer de mim, de você, dos outros, do mundo e, claro, de nós.

quinta-feira, 4 de fevereiro de 2010

Não há fé

Às vezes penso que o que tivemos foi único. A união. E que a intensidade com que amamos e odiamos nos diferencia de todass as outras histórias de amor. Mas olho em volta e vejo que fomos feitos do mesmo material que todos os outros romances impossíveis. E eternamente fugazes. Inventados. Nada do que vivemos foi único, não é? Nesse exato momento, enquanto, cansada, eu tento me livrar dos meus pensamentos, você experimenta em outra todas as palavras que já testou em mim. Funcionou, não? O efeito semelhante faz nascer mais uma nova velha história de amor. A-M-O-R. Não. Nós não somos nada especiais. Não somos nada. Não há especialidade no insucesso, não há porque eu esperar que com você seja (ou fosse) diferente. Porque todas as histórias de amor são feitas de fé. Só é isso. A certeza no que não se vê. Fé. E não há fé em nós, assim como não há mais amor por você.

domingo, 10 de janeiro de 2010

Textos velhos para sentimentos antigos

Eu queria que me despedir de você fosse banal assim. Assim como acordar ao teu lado foi banal tantas vezes. Almoçar com você. Comer você.
Queria te dizer tchau como quem pede uma penca de bananas. Virar as costas e não ter a sensação de que tudo morreu ali. Que eu morri. Queria saber ficar do teu lado sem sofrer, sem amar tanto, sem te esperar, sem desejar que cada momento fosse único e intenso como só seria se fôssemos um livro sobre tragédias.
Eu desejo saber me separar de você e continuar a desejar o mundo. Queria que viver ao teu lado doesse menos e que a tua ausência fosse uma possibilidade fácil.
Eu queria te ver sofrer, amar, chorar, doer, cantar, gozar, rir, desejar, reclamar. Queria que fosse suportável e que tudo fosse só uma música triste.

domingo, 20 de dezembro de 2009

Psyco

Sonhei há duas noites com um jacaré que picava o meu pé. Noite passada, sonhei com elevadores que passavam por uma turbulência e depois caíam de uma altura curta, a mesma, mais ou menos, do muro onde eu estava pendurada tentando fugir do jacaré. Esta noite sonhei que voltávamos a viver juntos. Mas, ao contrário do que eu desejava, a vida não era boa, nós não nos amávamos e aquilo era mera formalidade. Você ainda não me ouvia, não sabia reconhecer as pequenas coisas, não percebia a presença e continuava sozinho, mesmo que eu estivesse ali. Hoje estou psicótica, maníaca. Pensamentos repetidos, ideias que insistem em voltar, obsessão. Hoje eu não conversei com ninguém e quis chorar dentro do ônibus porque estou completamente sozinha. Certeza de suicida. Tudo ia continuar normal... Você ia continuar só com vc, nada muda. Saudade de um tempo curto. Saudade de gostar do Natal. Necessidade de colo de um estranho. Esta noite não vou dormir. Não vou precisar.

sábado, 21 de novembro de 2009

Ausência constante

A ausência dele era uma das presenças constantes. Ela acordava cedo, trabalhava muito, suava pra esquecer, corria pra apagar, enchia a cabeça. Mas a ausência a acompanhava. Hoje, pegou uma mala verde e encheu de roupas limpas. Decidiu ir para longe antes mesmo que pudesse ter certeza que aquilo não era uma boa ideia. Dentro do carro, pegou o telefone para deixar uma última mensagem para quando a ausência aparecesse. E aconteceu. Daquelas coincidências que, ela sabia, prendem a criatura numa maldição sem nome e transforma as manhãs solitárias em pesos ainda mais difíceis de carregar. E, com uma voz boba, um tom inseguro e nada que pudesse fazê-la mudar de planos. Mas mudou. Esqueceu o que estava fazendo dentro do carro, o post-it grudado no computador "acabou", esqueceu a motivação e acordou sozinha de novo, para mais quanto tempo ela nao sabia. Ausência constante.

quarta-feira, 14 de outubro de 2009

The origin of love



Vi uma peça hoje e saí pensando em mil coisas. Conheci um trecho do filme "Hedwig" também, que é necessário ser visto para que o blablabla todo faça sentido. Eles contam da origem do amor, uma história que está nos Diálogos do Platão, mas que a música resume bem, além de ser estranha e meio brega - o que torna tudo melhor. É bonito, bem bonito. Pra quem acredita no amor. "Ai de mim", como disse a tal moça de Prometeu Acorrentado.
Antes do amor, existia um ser que era dois, mas como estávamos muito fortes, os deuses nos diminuíram pela metade e hoje sentimos essa dor de estar/ser incompletos. Eles sabem que sozinhos, somos fracos.
E o umbigo, a prova de tudo? Muitas ideias. Pra quem acredita no amor.




quarta-feira, 30 de setembro de 2009

Vai passar nessa avenida

Se este blog anda parado, a culpa é da nova vida. Muitos trabalhos e poucos acontecimentos. Os sentimentos são os mesmos, melancolia às vezes, risadas sem sentido umas outras, inércia dominante. A vida não acontece dentro destas quatro paredes que, as 0h07 de uma terça-feira, ainda me impelem a escrever. Escreva. Leia. Revise. A vida pode esperar. Lá fora o dia não passa, os pássaros não voam e os ipês que eu tanto gostei ainda não vão florescer. Quem sabe sábado, ou quem sabe semana que vem. Aqui dentro, a vida é só uma mentira enquadrada nos manuais.